segunda-feira, 29 de março de 2010

Saxophone Days parte III, por Cortázar


"Bem, estou com vontade de tocar e tocaria agora mesmo, se tivesse o sax, mas Dédée emperrou que só ela leva o sax ao teatro. É um sax formidável, ontem eu achei que estava fazendo amor com ele enquanto tocava"

Julio Cortazár
Conto: O Perseguidor
As amas secretas, ed. José Olympio, 2006

Ouvindo: Stan Getz & Bill Evans - Melinda

domingo, 28 de março de 2010

Vocação para mago

Aaron Parks é um pianista com uma carreira bastante promissora e criativa, pertencente a uma nova geração de músicos que renovam e modernizam o jazz junto com Brad Mehldau, Bad Plus, Tord Gustavsen e o grupo Rudder (já citado nesse blog). Parks conseguiu construir um dos grandes álbuns de jazz dos últimos tempos, o aclamado “Invisible Cinema”. Aaron Parks, nascido em 7 de outubro de 1983, está de ouvidos abertos com o seu tempo, observa-se nesse disco texturas e influências de indie rock e rock experimental, segundo Alê Duarte do site Radiola Urbana: “Parks subverte a principal característica do jazz desde o surgimento do bee-bop e se aproxima da música pop mais tradicional na execução e de novos níveis climáticos na sonoridade – como se o Radiohead resolvesse gravar um disco de jazz”. Parks que já foi sideman do excelente trompetista Terence Blanchard, com quem gravou alguns álbuns e também excursionou, já lançou três álbuns, inclusive o ótimo “Wizards” de 2001, que junto com um quinteto passeia por diversos estilos, fazendo uma viagem musical bastante interessante. Em entrevista Parks diz ter influências diversas que vão desde Carla Bley, Keith Jarrett, Wayne Shorter, Ornete Coleman e Miles Davis passando por Radiohead, Bjork, Blonde Redhead, Debussy e Bach. Apesar de sua virtuosidade, o pianista está a favor da experimentação e de mostrar um campo aberto para novos apreciadores de jazz, suas melodias soam bem contemporâneas e coesas, buscando a criatividade a todo instante. “Invisible Cinema” conta ainda com a participação do guitarrista Mike Moreno, Eric Harland na bateria e Matt Penman no baixo. A partir da faixa que abre o disco “Travelers”, já observamos que iremos adentrar em terreno desconhecido, se tratando de um álbum diferente de um disco de jazz mais purista. Moreno que entra a partir da segunda faixa tocando a inspiradíssima “Peaceful Warrior” acentua a qualidade da melodia fazendo um solo magistral na composição de Parks. Nas faixas “Into The Labyrinth” e “Afterglow”, o pianista também mostra que tem talento para ser um músico de concertos. Em "Nemesis" e "Harvesting Dance” o flerte de Parks com o indie e o rock experimental ganha contornos contemporâneos. Virtuosismo, originalidade e coragem estão presentes nesse extraordinário álbum lançado em 2008. Vida longa a Aaron Parks. Vida Longa ao seu jazz de olho no futuro. Abaixo o link. Good Trip !!!

Link:
http://www.zshare.net/download/5223839193d95293/

Ouvindo: Aaron Parks - Peaceful Warrior

sábado, 27 de março de 2010

Saxophone Days parte II - Solto nas nuvens

“Eu sempre quis que meu instrumento soasse como um Dry Martini”
Paul Desmond

O saxofone de Paul Desmond é algo absolutamente romântico, lírico e poético, se houvesse alguma definição para descrever o seu som eu diria ser um sax solto nas nuvens, um som voando limpo e ao mesmo tempo preciso. Paul Emil Breitenfeld (mudou mais tarde para Desmond, por considerar mais sonoro), nasceu em San Francisco, Califórnia, em 25 de Novembro de 1924. Filho de um organista que tocava em cinemas na época de filmes mudo, aos doze anos já tocava clarinete na escola San Francisco Polytechnic High e anos mais tarde começou a tocar saxofone alto. Neste mesmo ano, é recrutado para o serviço militar e toca com a banda do exército. Paul Desmond ficou conhecido por tocar no quarteto do pianista Dave Brubeck, onde tocou por 17 anos e compôs um dos maiores sucessos do grupo “Take Five”, uma de suas particularidades era o hábito de tocar longe do microfone, sempre em busca da melhor sonoridade. Desmond faleceu em 1977, deixando um legado de fraseados líricos e cristalinos para saxofonistas de várias gerações.

A California do pós-guerra foi sendo invadida por pessoas de diversas partes dos Estados Unidos buscando oportunidades e uma vida nova. Depois do saxofonista barítono Gerry Mulligan tocar em Birth of the Cool (1949), disco antológico de Miles Davis que já anunciava o chamado cool jazz (vertente do jazz mais leve e mais romântica) em contaponto ao Beboop, estilo já desenvolvido por mestres como Charlie Parker, Dizzy Guillespie, Bud Powell e Thelonius Monk e o hard bop que estava se desenvolvendo nos Estados Unidos, ele conseguiu tocar regularmente nas noites de Los Angeles e formou um quarteto com Chet Baker (trompete), Bob Whitlock (contrabaixo) e Chico Hamilton (bateria), segundo o crítico Gary Giddins: “A banda era tão serena que parecia o Oceano Pacífico. As ondas, o ar varrendo a costa Oeste e os jovens adoravam. Tornou-se muito popular nos campus e surgiu o movimento “Cool Jazz”, “West Coast Jazz”. E um dos grupos mais conhecidos da época, era o então quarteto de Dave Brubeck que contava com Dave Brubeck no piano, Eugene Wright no contrabaixo, Joe Morello na bateria e Paul Desmond no sax alto. O disco “Time Out”, de The Dave Brubeck Quartet é lançado em 1959 e contém “Take Five”, composta por Desmond em um dinamismo e lirismo impressionante, uma música no compasso 5/4. “Blues Rondo A La Turk” é uma música de Dave e ele explica que quando viajou para a Turquia notando que tocavam músicas no compasso 9/8, improvisando com em um blues, foi que pensou em criar nesse compasso também, isso porque Dave Brubeck teve ensimentos bem claros de seu mentor, o compositor francês Darius Mihaud: “Viaje pelo mundo e mantenha os ouvidos abertos. Use tudo o que ouvir de outras culturas e traduza para o idioma do jazz”. O resultado de “Time Out" foi o desejo de Dave Brubeck de passar por várias marcas de tempo na música que não eram usadas no jazz. O álbum foi o primeiro disco de jazz a vender 1 milhão de cópias, além do sucesso comercial, The Dave Brubeck Quartet lotavam shows, foram reconhecidos por diversos músicos, inclusive por Willie The Lion Smith, que quando ouviu um de seus discos sem que lhe dissessem quem estava tocando, disse: “Ele toca como a origem do blues”. Dave sabia o quanto devia a gerações mais antigas de músicos negros, Duke Elligton era um deles, no qual considera o maior dos compositores estadunidenses. O disco “Time Out” é um deleite, uma obra prima da música universal, repleto de romantismo, criatividade e ousadia. O quarteto com essa formação se manteve em ação até 1967, depois Dave Brubeck continuou esporadicamente se apresentando com Desmond, mas montou com Gerry Mulligan, Allan Dawson e Jack Six, um grupo que durou até 1972. O trompetista Wynton Marsalis disse certa vez que os melhores encontros de músicos são suaves e intensos, ele quis dizer que foi assim quando Miles se reuniu com outros músicos e lançou “Birth of the Cool”. Suave e intenso, também foi o encontro de Brubeck e Desmond, juntos eles entraram para a história do jazz, o piano de Dave Brubeck e o saxofone solto e alto nas nuvens de Paul Desmond. Abaixo o link em 2 partes da edição de 50 anos de Time Out. Abraços !!!

Parte 1:
Parte 2:

Ouvindo: The Dave Brubeck Quartet - Everybody's Jumpin'

sábado, 20 de março de 2010

Uma Grande Homenagem ao Maestro Soberano !

O talentosíssimo pianista Fred Hersch é ao lado de Tord Gustavsen e Aaron Parks, um dos pianistas contemporâneos que eu mais gosto, sua maestria e dedicação ao piano estão a favor da sensibilidade e da técnica apurada, segundo o escritor David Hajdu autor da biografia de Billy Strayhorn, o pianista e compositor estadunidense Fred Hersch seria o expoente de um jazz para o século XXI. Nascido em Cincinatti, Ohio em 1955, Fred começou a aprender piano bem cedo e estudou no New England Conservatory of Music em Boston, mas radicou-se em Nova York, onde vive desde 1977. Ele já tocou com Sam Jones, Billy Harper, Joe Henderson, Lee Konitz, Charlie Haden entre outros. Em sua jornada, Fred mostra ligações com o jazz de Thelonius Monk e Charles Mingus, sendo muito influenciado também pela música brasileira, já tendo trabalhado com as cantoras Leny Andrade e Luciana Souza. Em 2009, Fred lançou um álbum em homenagem ao compositor Antonio Carlos Jobim, fazendo um disco incrivelmente bem elaborado e sensível, o pianista passeia por encadeamentos rítmicos com leveza e profundidade, utilizando estruturas clássicas nos arranjos, como é o caso de "O grande amor", em que ele realça a melodia envolto de uma técnica habilidosa e "Insesatez" em que ele alterna o andamento ora suave e depois avança, fazendo uma linda ponte conceitual para esta canção. O disco conta ainda com a participação do percussionista Jamey Haddad, que aparece em "Brigas Nunca Mais" e Hersch encerra o álbum com a clássica "Corcovado", onde mescla notas meditativas com uma harmonia estruturada, exaltando a linda melodia da canção. Lembrando que em 1998, Fred lançou o ótimo disco "Sing We Know", ao lado do guitarrista Bill Frisell, onde a versão para "Wave" de Tom Jobim é extremamente bela. Fred Hersch plays Jobim, é um disco sensacional em que o artista traz um frescor original para a obra de Jobim, extremamente revigorada e prazeirosa. Uma grande homenagem ao nosso maestro Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Tom. Abaixo o link !!!

http://rapidshare.com/files/312510149/Fred_Hersch_plays_Jobim.rar

Ouvindo: Fred Hersch - Meditação

quinta-feira, 11 de março de 2010

Considerações sobre o Jazz, por McLuhan.

"A palavra Jazz vem do francês Jaser, conversar. O Jazz, de fato, é uma forma de diálogo entre instrumentistas. Estas novas formas, que muito contribuiram para recuperar o mundo vocal, auditivo e mimético que vinha sofrendo a repressão da palavra impressa, também inspiraram os estranhos novos ritmos da era do Jazz, aquelas várias formas de síncope e descontinuidade simbolista que como a relatividade e a física quântica, anunciavam o fim da era de Gutemberg, com suas macias e uniformes linhas tipográficas. Se o Jazz é considerado o mecanismo em direção ao descontínuo, ao partipante, ao espontâneo e ao improvisado, também pode ser visto como retorno a uma espécie de poesia oral, em que a interpretação é ao mesmo tempo criação e composição".

Marshall McLuhan, no capítulo "O Fonógrafo" do Livro O meios de comunicação como extensão do Homem (1964).

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Grande Bud !

É sempre bom ressaltar a importância de Bud Powell na modernização do jazz, sendo ele um dos principais protagonistas ao lado de Charlie Parker, Thelonius Monk e Dizzie Gillespie na criação do bebop. Bud nasceu em 1924, em Nova York e começou a tocar com 5 anos de idade, aos 7 anos já acompanhava músicos de jazz em concertos e ensaios para ser admirado por outros músicos. Tornou-se profissional aos 15 anos e em 1941, Bud já possuia um nome estabelecido na cena jazzística, quando é convidado pelo ex-trompetista da orquestra de Duke Ellington, Cootie Williams, para excursionar com sua banda. Em seguida agravam-se seus problemas com alcoolismo e anos depois é preso com Thelonius Monk por porte de drogas. Morou na França de 1959 a 1964 e compôs músicas dedicadas ao povo francês, que tanto apreciava a sua música. De volta a Nova York levando uma vida atribulada e com problemas de saúde, Bud vem a falecer em 1966. Ele gravou com Charlie Parker, Dizzie Gillespie, Miles Davis, Sonny Rollins, Dexter Gordon entre outros. Bud Powell escreveu sua história com composições que continuam sendo tocadas até hoje. Os momentos mais luminosos de sua carreira estão gravados pela Blue Note em 3 sessões, realizadas em 9 de outubro de 1949, as pérolas "Dancing of the Infidels" e "Bouncing with Bud", com Fats Navarro (trompete) e Sonny Rollins (saxofone), "Un Poco Loco" com Curley Rusell (baixo) e Max Roach (bateria) em 1° de maio de 1951 e em 14 de agosto de 1953 grava "Glass Ecloure". Disponibilizei uma coletânea com um apanhado dessas gravações que mostram como o piano de Bud é inspirador. Abaixo o Link:

terça-feira, 9 de março de 2010


Meu professor Mauro Senise vai tocar nesta terça-feira, dia 9 de março, no Teatro Carlos Gomes, às 19 horas com o grande pianista Gilson Peranzzetta com quem forma um duo que já tem 20 anos de história e música de altíssima qualidade. Nesse espetáculo eles convidam Rildo Hora. Na sexta-feira passada fui no show de meu mestre Mauro com o Gilson e a harpista Silvia Braga, lançando o cd "Melodia Sentimental" e saí de lá emocionado e nas nuvens, um lindo espetáculo de grande música e sensibilidade artística. Vale a pena chegar lá no Carlos Gomes, Praça Tiradentes 19.

O LABORATÓRIO RUDDER

Uma espécie de encanto e magia vem à tona quando o grupo Rudder sobe no palco. Projeto formado por músicos da cena instrumental e avant-garde nova-iorquina, que geralmente tocam em pequenos clubes, o grupo Rudder é sinônimo de experimentação e de um som que gravado em estúdio expõe a intenção do que esses músicos fazem ao vivo. Rudder utiliza aparatos e disponibilidades tecnológicas para criar e improvisar ao vivo e texturas e efeitos hipnóticos para quem ouve seu som, um laboratório fusion jazz que vai de Electroclash(termo criado pelo Dj americano Larry Tee para identificar um tipo especial de música eletrônica que estava surgindo em Nova Iorque por volta do ano 2000) ao Nu-Jazz . Tive o privilégio e o prazer de assistir o show deles no Festival de Jazz & Blues de Rio das Ostras em 2009 e fiquei extasiado e maravilhado com o som dos caras, em primeiro lugar por que sou um grande fã do saxofonista Chis Cheek formado em Berklee e de formação jazzística, Cheek para mim é um dos melhores saxofinistas dessa geração, ele já tocou com gente como Charlie Haden, Bill Frisell, Joshua Redman, Paul Motian entre outros. Chris é também o grande diferencial e músico brilhante do grupo, com seu saxofone em punho, ele hipnotiza a platéia tirando efeitos de seu saxofone ligado em pedais de guitarra que criam muitas das frases melódicas experimentais do grupo. Rudder também conta com o tecladista Herry Hey, que usa e abusa de texturas sintetizidas e sampleadas, que já tocou com Bill Evans, Till Broenner e Rod Stewart e ainda também no grupo o baterista Keith Carlock que possui uma passagem pelo grupo Steely Dan e integrou o trio do guitarrista Wayne Krantz e no baixo Tim Lefebvre que faz parte da banda do programa "Saturday Night Live". Segundo as palavras do próprio Tim: "Ao invés de soar como quatro indivíduos, buscamos atmosferas sonoras", está aí a explicação para o som alucinante do quarteto, afinal para que serve um laboratório, senão experimentar. Consegui o álbum Matorning lançado em 2008 e chapei na primeira audição, um disco fantástico e viajante. Abaixo o disco. Good Trip !!!

domingo, 7 de março de 2010

Orton, Very Well !!! My Muse

Uma das artistas e cantoras mais interessantes e criativas da contemporaneidade é sem dúvida Beth Orton, nascida em Derehan, Inglaterra, em 1970. Beth lançou em 1999, Central Reservation um amadurecimento musical em relação ao seu álbum anterior, Trailer Park (1996). Em Central Reservation, Orton passeia pelo folk habitual de seu trabalho com pitadas de música eletrônica. Em momentos do disco percebemos uma sonoridade com elementos de trip hop, Beth que já colaborou com artistas da cena eletrônica como o Chemical Brothers em meados dos anos 90, nesse álbum usa elementos de música eletrônica apenas como ferramenta e não como uma regra, já que o que prevalece no disco é o seu ambiente acústico e a boa perfomance vocal da cantora. O disco que contém as partipações de Ben Harper tocando slide guitar na faixa de abertura "Stolen Car" e do músico de folk Terry Callier em "Pass in Time", é muito bem construído e que segundo a declaração da própria dada a revista Rolling Stones na época de lançamento do disco, ele possui uma vibração própria. A melancolia de Orton em certos momentos rende boas faixas como o folk "Blood Red River", e a dylanesca "Love Like Laughter". Em 2006, Orton lançou o bom Confort of Strangers, um trabalho mais direcionado ao folk tradicional, mas foi em Central Reservation que Beth deixou um registro sobre o seu telento e sua personalidade musical, um disco muito bom que vale a pena ser ouvido. Abaixo o link do álbum.
Link:
http://www.easy-share.com/1904087234/0888.rar

Ouvindo: Beth Orton - Stolen Car

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Nos Trilhos de um Blues Acústico...

Eu podia estar em uma estrada do Mississippi, sob velhos trilhos do sul do Estados Unidos escutando um andarilho tocar seu violão national steel com um dedal de metal, trazendo lamentos, pulsação e alma para os meu ouvidos. Foi assim desde o 1° play no som de Kelly Joe Phelps, músico estadunidense que resgasta canções de blues acústico com referências da velha guarda e toques contemporâneos. Kelly Joe Phelps cresceu em Sumner, Washington, uma cidade pequena e simples dos EUA e começou a tocar guitarra com 12 anos. Ele se concentrou em free jazz e seguiu o estilo de músicos como Ornette Coleman, Miles Davis e John Coltrane e passou dez anos tocando jazz como baixista. Mas tudo mudou quando começou a ouvir mestres do blues acústico como Fred McDowell e Robert Pete Williams. O estilo de Joe Phelps é caracterizado pelo seu lapstyle slide, solo em um violão deitado em que ele dedilha e dá palhetadas com uma pesada barra de ferro. Inspirado pelo nascimento de sua filha Rachel em 1990, Phelps começou a compor músicas e a cantar. Em 1995, ele lançou seu eleogiado álbum de estréia, Lead Me On. Depois lançou seu segundo álbum, Roll Away the Stone(1997) e seguiu com Shine Eyed Mister Zen(1999). Seu quarto álbum, Sky Like a Broken Clock, apareceu em 2001, dessa vez com acompanhamento de um baixista e um baterista. Beggar's Oil EP, foi a favorita dos críticos em 2002. Em ordem para alcançar um som rico e orquestrado em Slingshot Professionals, lançado em 2003, ele coletou um ampla turma de músicos para tocar violão, baixo, bateria, bandolim, violino e acordeão. Em 2005, Phelps lançou um álbum acústico, Tap the Red Cane Whirlwind, que foi seguido um ano depois pelo álbum de estúdio Tunesmith Retrofit. Western Bell é seu oitavo álbum, contendo músicas instrumentais e pode ser um verdadeiro passeio pela alma das estradas e trilhas norte-americanas que segundo a definição em seu site são composições tão completamente formadas, tão salpicadas com os fatasmas da American Music, que você juraria que elas existirão por gerações. Segundo o grande guitarrista Bill Frisell: "Ele parece ter batido na artéria de algum jeito. Tem muito acontecendo entre e atrás das notas. Mistério. Ele foi uma inspiração para mim", observa Frisell no site de Phelps ao ter contato com a música do próprio. Concluindo, posso dizer que a música de Kelly Joe Phelps é poderosa, forte como um hino das estradas da região do Delta, Mississippi, forte como uma história contada nas cordas de andarilhos e românticos que tocam seu blues em um violão lapsteel por aí. Abaixo postei o cd Shine Eyed Mister Zen, apreciem !!! Delta Vibe !!!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A Paz Sonora !!!

Saiu em DVD no Brasil, o projeto "Playing For change - Peace Thoung Music" dos diretores Mark Johnson e Jonathan Walls, o projeto que consiste em gravar e captar perfomances de músicos de vários lugares do planeta e transformar em uma espécie de clip simultâneo, criando uma nova combinação em que todos os artistas estão, essencialmente, realizando em conjunto, apesar de centenas ou milhares de quilômetros de distância suas apresentações, foi a ambiciosa jornada dos idealizadores que levou os do pós- apartheid da África do Sul, através dos sítios arqueológicos do Oriente Médio, até a beleza remota do Himalaia e além, conforme descrito na contracapa do DVD. Usando tecnologia móvel de captação de som, os diretores filmaram e gravaram mais de 100 músicos, em grande parte ao ar livre em parques, praças, estradas, nas ruas de paralelepípedos e em meio a montanhas, trazendo elementos musicais de diversas culturas e etnias. O documentário ainda conta com a participação de artistas como Bono Vox, Keb Mo e Nahuel Schajris. Destaco a apresentação do músico de rua Roger Ridley, que com sua apresentação abre o documentário com uma belíssima perfomance de "Standy by me". Playinng For Change é o resultado de uma colaboração global de artistas em prol de um mundo pacífico e sonoro. Vale a pena assistir. Abaixo o link da versão de "One Love" de Bob Marley que aparece no DVD !!!

http://www.youtube.com/watch?v=aEW0BtFuj5I

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O Cancioneiro do Norte

Bon Iver pode se orgulhar de ter lançado um belíssimo disco, de enorme sensibilidade. Justin Vermon (nascido em Eau Claire, Wisconsin, EUA, em 1981), o mentor por trás dessa obra, montou o Bon Iver — nome retirado da expressão francesa bon hiver (bom inverno) em 2007, os outros integrantes são Michael Noyce, Sean Carey e Matthew McCaughan. O disco "For Emma, Forever Ago", lançado em 2008, pode ser apreciado como um disco de canções folk, que exaltam doses de experimentalismo e harmonias vocais inspiradíssimas, seja na poesia contida nas letras ou na construção de lindas melodias, o disco que foi gravado durante os três meses em que Justin passou sozinho numa cabana no meio da neve após o desmembramento de sua antiga banda DeYarmond Edison, chama atenção pelo vocal exótico e sensível do vocalista e compositor Justin Vermon que ampliou a sonoridade do álbum com muitos overdubs e uma atmosfera lo-fi de toques e vozes precisas. O disco que remete entrar em um estado de instropecção e até mesmo relaxar, me surpreendeu pela qualidade sonora e melódica, em que Justin nos ensina como desenhar uma canção e como conversar com a alma. Abaixo o link do disco "For Emma, forever ago". Blesses !!!

Link:

Ouvindo: Bon Iver - Re: Stacks

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Saxophone Days parte I

Tudo se transformou, a paixão veio repentina, mas nesse momento só sou eu, eu e o meu fôlego, adentrando no prestígio dessa noite. Ando meio cansado, cansado, porém vivo. Nesse instante o vento me leva até a ponte, nessa ponte eu e meu saxofone levam a música e o sentimento do meu coração pra fora. Me afastei um pouco, o pouco que dois discos de sucesso me esvaziaram, minha música não tem regras, não é ditada por nenhum homem de negócios, eles não podem beber do meu vinho, muito menos se alimentar da minha chama. Minha melodia é levada por entre os vultos da cidade, o Brooklyn que parece tão distante ao mesmo tempo tão próximo, leva meu clamor a se suicidar para renascer um novo homem, um novo músico. Cresci no Harlem, envolto da nata jazzistica desse planeta e sei agora que Parker e Hawkins podem ouvir meu blues aonde estiverem. Eu procuro estar aqui agora e me conectar com meu verdadeiro som, com a minha música interior.

Esse texto foi inspirado em um trecho da vida do saxofonista Sonny Rollins. Abaixo o link de um de seus disco - Sonny Rollins - The Bridge.


Ouvindo: Sonny Rollins - God Bless the child
"Se o dia e a noite são de tal forma que vós os saudais com alegria, se a vida emite uma fragrância de flores e ervas aromáticas e se torna mais elástica, mais cintilante e mais imortal - eis aí o vosso êxito. A natureza inteira é vossa congratulação e tendes motivos terrenos para bendezer-vos. Os maiores lucros e valores estão ainda mais longe de ser apreciados. Chegamos facilmente a duvidar de que existam. Logo os esquecemos. Constituem, entretanto, a realidade mais elevada. [...] A verdadeira colheita de meu dia a dia é algo de tão intangível e indescritível quanto os matizes da aurora e do crepúsculo. O que tenho na mão é um pouco da poeira das estrelas e um fragmento do arco-íris."

Henry David Thoreau retirado de Walden, ou a vida nos Bosques.

Tradução: Astrid Cabral, Global Editora.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

ALERTA TERRA CHAMANDO !!!
Por uma era de paz, preservação e humanismo.

Após o fracasso por um acordo mais consistente na Conferência do clima (COP-15) em dezembro do ano passado em Copenhague, fica a deixa para a reflexão da urgência por um acordo global, ações para preservar o planeta e medidas de redução dos gases do efeito estufa. O aumento da temperatura da Terra, poderá ocasionar o derretimento das calotas polares e o aumento do nível dos mares, conforme muito noticiado na mídia nos últimos anos. Escrevendo sobre a ameaça desse aquecimento, que poderia causar o derretimento da calota polar nos mares do Ártico e a competição militar na região, nesse texto também chamo a atenção para a não-proliferação do armamento nuclear e para a proposta do Grupo Pugwash Canadense, e sua luta para a redução do armamento nuclear e o estabelicimento da Zona Ártica Livre de Armas Nucleares (NWFZ). Espero que nesse ano de 2010 e nessa década o homem acorde para preservar o meio-ambiente e acorde para ações mais eficazes em relações aos direitos, igualdade e solidariedade entre os homens, indico aqui as oito áreas de atuação definidas pela Declaração das Nações Unidas e Programa de Ação sobre a a Cultura de Paz de 1999, uma proposta para que as relações humanas sejam permeadas pelo diálogo, pela tolerância, pela consciência da diversidade dos seres humanos e de suas culturas, ou seja, a paz na diversidade. A ONU definiu a cultura de paz na Declaração e Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz , em 13 de setembro de 1999.
As oito áreas de atuação definidas pela Declaração das Nações Unidas e Programa de Ação sobre a Cultura de Paz de 1999 são: 1) promover uma cultura de paz por meio da educação; 2) estimular a economia sustentável e o desenvolvimento social; 3) cultivar o respeito por todos os seres humanos; 4) assegurar a igualdade entre homens e mulheres; 5) incentivar a participação democrática; 6) promover a compreensão, tolerância e solidariedade; 7) apoiar a comunicação participativa e o livre fluxo de informações e conhecimento; 8) promover a paz e a segurança internacional. Bem, esse é o otimismo do autor desse blog que espera que o mundo faça valer essa proposta e respeite mais nosso Planeta Gaia. Um feliz 2010 a todos !!!

Ouvindo: Fleet Foxes - Blue Ridge Mountains

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Viajando para Big Sur


Um dos discos que mais gostei em 2009 foi o projeto do músico Jay Farrar, ex-Uncle Tupelo e atual Son Volt, que juntamante com Ben Gibbard, da banda Death Cab for Cutie, criaram um disco inspiradíssimo em homenagem ao escritor beatnik Jack Kerouac, chamado "One fast move or I'm gone: Kerouac's Big Sur" ("Uma manobra rápida ou vou embora: o Big Sur de Jack Kerouac"). As gravações que vinham sendo feitas desde de 2007, serviram de trilha para o documentário a respeito do período em que o escritor passou na região de Big Sur, na Califórnia. Os dois músicos que são fã da literatura de Kerouac, tiraram 90 por cento das letras das músicas do romance "Big Sur" (1962), inclusive um poema que aparece como adendo ao livro - "Mar: sons do oceano Pacífico em Big Sur". Farrar e Gibbard dividem os vocais, com a participação de Brad Sarno e Aaron Espinoza na faixa título e Mark Spencer tocando vários instrumentos. Farrar também toca guitarra, percussão e gaita e Gibbard participa como guitarrista e baterista em algumas faixas. O discos que reune 12 canções, foi feito de maneira simples, segundo Ben Gibbard sem muitos adornos. Na minha opinião é um álbum repleto de canções folk que rementem ao oceano e ao campo, que fazem o ouvinte relaxar e viajar para o universo de Big Sur ou para qualquer lugar de sua imaginação.

LinK: http://rapidshare.com/files/295959884/OFMOIG_JF_BG.rar

Ouvindo: Jay Farrar & Ben Gibbard - All In One

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Som de alma

Duane Allman, nasceu em Nashville, Tenesse (USA), em 1946, foi membro fundador da banda The Allman Brothers e tocou no disco clássico de Eric Clapton, Derek & The Dominos – Layla & other assorted love songs, é dele a guitarra slide de ‘Layla”, grande clássico de Clapton. Duane Allman, analisou profundamente álbuns de suas influências musicais. Mike Johnstone, um companheiro de quarto na academia militar que ambos serviram, lembra-se de Duane, descalço, tocando junto com um álbum de B.B. King. Segundo Johnstone, ele parava e voltava o disco com o dedo do pé enquanto aprendia um lick, depois deixava o disco tocar até o próximo lick. Assim ele passava pelos dois lados do álbum e repetia o processo por horas a fio. Tamanha dedicação rendeu a Duane grandes discos e solos inspirados, além de ter tocado com o Allman Joys and the Hour Glass, Duane Allman participou como músico de estúdio, gravando uma linda versão de “Hey Jude” dos Beatles, junto com Wilson Pickett, também tocou com Aretha Franklin, King Curtis, Delaney and Bonnie, Ronnie Hawkins, Clarence Carter, John Hammond, Boz Scaggs, Herbie Mann e outros artistas, documentados em Duane Allman: An Anthology Volumes 1 e 2. Infelizmente, Duane Allman faleceu precocemente em 1971, mas deixou um legado musical incrivelmente inspirado e bonito. Duane foi um dos precursores do chamado southern rock, mistura de blues e rock com pitadas do sul dos Estados Unidos. Discos tocados com a sua banda The Allman Brothers, Layla e sessões de estúdio são verdadeiros clássicos da música universal. Que os discos de Duane Allman nos ilumine feito sua preciosa frase.

“Adoro estar vivo e serei a melhor pessoa que posso ser. Receberei amor onde quer que eu o encontre, e o oferecerei para qualquer um que o quiser... procurarei conhecimento dos mais sábios... e ensinarei aqueles que desejam aprender de mim”

Ouvindo: Wilson Pickett - Hey Jude

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Pós-solidão soneto

No silêncio das pessoas: uma introdução dos tatos.
Intangíveis elas sonham o erótico em corpos da cidade.
É quando a minha solidão, vai de encontro a sua, assim em ubiquidade acelerada.

A comunicação que reina por aqui é aquela sem algarismos,
ela não banca libidos, só iludi meninos que flagram vestigios de peças.

Quando queremos no outro, aquilo que se precisa é precisa a farpa leve solta da maré.

Onde os países voam, eu me encontro numa ilha,
sob arquipélagos de consumo em tempo mercador,
que no imaginário desvendam nuvens e instintos que sobrevoam
salvando cores e ossos, talves eles mudem, talves eles cresçam.

Victor Bello

Ouvindo: Ali Farka Toure - Diaraby

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Se brilhassem os faróis


Se brilhassem os faróis, o rosto sagrado,
Preso num octógono de insólita luz,
Murcharia, e todos os mancebos do amor
Pensariam duas vezes antes de cair em desgraça.
Os traços de suas íntimas trevas
São feitos de carne, mas que chegue o falso dia
E caiam de seus lábios as cores desbotadas,
Que as vestes da múmia exponham um peito antigo.

Disseram-me que pense com o coração,
Mas o coração, como a cabeça, conduz ao desamparo;
Disseram-me que pense com a pulsação
E, quando ela se acelerar, mude o ritmo da ação
Até que no mesmo plano se fundam os campos e os telhados
Tão rápido me movo ao desafiar o tempo, o tranqüilho fidalgo
Cujas barbas flutuam ao vento.

Ouvi o que muitos anos tinham a me dizer,
E muitos anos atestariam alguma mudança.

A bola que lançei quando brincava no parque
Ainda não tocou o chão.

Dylan Thomas - Poemas Reunidos (1934-1953)

Ouvindo: John Frusciante - Resolution
Texto de Fidel Castro, extraído da Revista Caros Amigos, de Agosto de 2008

O DESCANSO
Encontro com um Nobel de Literatura

Decidi descansar ontem, e me reunir com Gabo e Mercedes, que visitam Cuba. Como desejava rememorar quase 50 anos de amizade sincera!
Nossa agência de notícias, sugeridas pelo Che, acabava de nascer e contratou um modesto jornalista, chamado Gabriel García Márquez. Nem a Prensa latina nem Gabo umaginavam que seria um Prêmio Nobel.
Falar com Gabo e Mercedes quando vinham a Cuba convertia-se numa receita contra as tensões em que de forma inconsciente, mas constante, vivia um dirigente revolucionário cubano. Assim que chegaram, eles entregaram-me um presente. Continha pequenos volumes. São os discursos pronunciados em Estocolmo, Suécia, por cinco ganhadores do Nobel de Literatura nos últimos 60 anos. "Para que você tenha material de leitura" - disse-me Mercedes.
Pedi mais dados antes deles irem embora às 17h. Minha curiosidadenão cessava. Os cinco Nobel escolhidosna pequena coleção foram: William Faulkner (1949); Pablo Neruda (1971); Gabriel García Márquez (1982); John Maxwell Coetzee (2003); Doris Lessing (2007).
Gabo não gostava de proferir discursos. Passou meses à procura de dados, angustiado pela palavras que devia pronunciar. O Nobel é outorgado na capital de um país que não tem sofrido os estragos de uma guerra em mais de 150 anos, regido por uma monarquia constitucional e governado por um partido social-democrata onde um homem nobre como Olof Palme foi assassinado por seu espírito solidário com os países pobres. Não era fácil a missão. Não é preciso dizer como pensava Gabo. Basta transcrever os parágrafos finais do discurso, uma jóia da prosa, ao receber o Nobel em 10 de dezembro de 1982, enquanto Cuba, digna e heróica, resistia ao bloqueio ianque:
"Um dia como hoje, meu mestre William Faulkner disse neste lugar: Recuso-me a admitir o fim do homem" - afirmou. "Não me sentiria digno de ocupar este lugar, que foi dele, se não tivesse a consciência pela de que pela primeira vez, desde as origens da humanidade, o desastre colossal que ele se recusava a admitir há 32 anos é agora mais que um simples possibilidades científica. Diante desta realidade aterradora que, através de todo o tempo humano, deveu parecer uma utopia, os inventores de fábulas que em tudo acreditamos sentimos que temos o direito de crer
que ainda não é tarde demais para começar a criação da utopia contrária.
"Uma nova e arrasadora utopia da vida, onde ninguém possa decidir por outros até na forma
de morrer, onde realmente seja certo o amor e seja possível a felicidade, e onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão tenham finalmente e para sempre uma segunda oportunidade sobre a terra"

Fidel Castro Ruz, 9 de julho de 2008, 19h26

Ouvindo: Gonzaguinha - Com a perna no mundo

O livro dos últimos leitores curiosos.


Eram alquimistas, bufões, poetas, metafísicos, inventores, idealistas e utopistas todos rodeados em volta do fogo candente, todos reunidos dentro de uma oca, uma oca de bambu e pau-a-pique cercada de espelhos por dentro. Quando cheguei nesta terra distante dos meus sonhos, bem na entrada havia um elefante e uma criança, um homem com cabeça de casco de tartaruga me recebeu na porteira, ele vestia uma bata, dessas bem brancas, brancas feito pluma e de linho macio. Esta Terra, parecia um pouco o sertão nordestino do Brasil, possuía poucas árvores e era cercado por uma ramagem extensa de plantas, fazendo um cercado grande em círculo e no meio a tal oca. Esse homem com cabeça de casco de tartaruga, me levou até a oca, ele disse para eu entrar com calma e que haviam muitos espelhos ali dentro e que no fundo desses espelhos haviam todas as ilusões possíveis, inclusive as dos meus sonhos. Os senhores, todos eles conversavam intercalados, parecia uma tribo primitiva que se emaranhavam em gestos e palavras, era um tanto engraçado, até que o homem que parecia ser o mais velho de todos, um senhor de cabeça chata, nariz comprido e bocas avermelhadas pegou em alguns livros e textos datilografados, havia ali enciclopédias, inúmeras correspondências de diversas partes do mundo, romances de Cervantes, Eça de Queiroz, Garcia Márquez e Cees Nooteboom, pelo que consegui observar entre alguns, textos que pareciam grandes dissertações e escrito na capa, algo referente a “As mil e uma noites e as ecrituras das cabeças de mulheres do passado" e o outro sobre “Ukbar”, retirados dos escritos de Borges, como alertava a contracapa. Tudo aquilo me chamou muita atenção, meu sonho parecia tão real, tudo era ao mesmo tão fantástico e ao mesmo tempo parecia tão sólido, diferente deste tempo líquido real que vivemos. Nessa terra dos meus sonhos, esse senhor veio até mim e disse ser um antigo alquimista das terras distantes da Turquia e Bufão aposentado de uma Escola circense da Itália, ele me falou sobre um livro que não consegui exatamente identificar qual era, disse para eu guardá-lo em meu coração, mesmo sem ter me dado, apenas escreveu um verso na palma de minha mão e disse-me que aqueles eram tempos preciosos, não entendi muito bem, acatei suas palavras e meu sonho me levou para o escuro novamente, assim, não consegui mais lembrar de nada depois, apenas dos versos que permaneceram em minhas mãos, eram eles: "Naquele tempo, procurava os entardeceres, os arrabaldes e a desdita; agora, as manhãs, o centro e a serenidade" Jorge Luís Borges, fiquei refletindo e curioso com tudo aquilo e foi quando despertei para acordar para outros sonhos e para outros livros.

Texto: Victor Bello

Ouvindo: Jan Garbarek - Red Wind

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O amante como artista.


"As imagens das quais sou excluído me são cruéis; mas por vezes também (reviravolta) sou envolvido pela imagem. Afastando-me do terraço do café em que devo deixar o outro em companhia, vejo-me partir sozinho, caminhando, um pouco arqueado, pela rua deserta. Converto minha exclusão em imagem. Essa imagem, em que minha ausência fica presa como num bloco de gelo, é uma imagem triste.

Uma pintura romântica mostra sob uma luz polar um amontoado de destroços gelados; nenhum homem, nenhum objeto habita esse espaço desolado; mas, por isso mesmo, por pouco que eu esteja dominado pela tristesa amorosa, esse vazio incita a que eu nele me projete; vejo-me como um boneco, sentado num daqueles blocos, irremedialvelmente abandonado."Estou com frio, diz o amante, vamos embora", mas não há nenhum caminho, o barco está despedaçado. Há um frio peculiar do amante: frialidade própria dos filhotes (do homem, do animal) que tem necessidade do calor materno"

"O que me machuca são as formas da relação, suas imagens; mais precisamente, aquilo que os outros chamam de forma, eu o experimento, eu, como força.
A imagem - como o exemplo para o obsessivo - é a própria coisa.
O amante é pois um artista,
e seu mundo é propriamente um mundo às avessas, já que nele toda imagem é seu próprio fim (nada para além da imagem)."


Gaspar David Friedrich

Trechos do Livro "Fragmentos de um discurso amoroso" - Roland Barthes

Ouvindo: Paulo Vanzolini - Tempo e Espaço (Paulo Vanzolini)

Citações Mutantes...As viagens do Homem Plural (parte um)

Sou muito curioso a respeito de muitos assuntos. Em uma sociedade altamente diversificada em que o futuro indica cada vez mais a necessidade de um homem plural, ou seja, um homem com competência em diversas áreas, conhecimentos e técnicas, minha avidez por diversas leituras, sempre me faz voltar as tradições filosóficas milenares, orientais e místicas. Me interesso muito por civilizações antigas como os Essênios, Atlântida, os Maias, os egípcios, a tradição sufi, o budismo, o tantrismo, taoismo etc... Vai algumas citações para quem se interessa adentrar nesse vasto conhecimento.

"Os anjos são criadores evolutivos
Eles não são mais o que os homens
pensam ainda deles.
E nós, os homens, somos a sua obra.
Enquanto obra, nós somos salvadores,
pois somente os nossos atos podem tudo salvar"
Gitta Mallasz

"Se um número suficiente de pessoas passar por
um processo de profunda transformação interna,
talvez seja possível alcançar um nível de evolução
da consciência no qual possamos merecer o nome
suntuoso que demos à nossa espécie: homo sapiens"
Stanislav Grof

"Não se preocupe,
meu sistema manterá
a consciência do Ser.
Você pensará.
Seu corpo será mais brilhante.
A mente, mais inteligente.
Tudo em superdimensão.
o mutante é mais feliz,
feliz porque na nova mutação
a felicidade é feita de metal"
Gilberto Gil

"Seja como for, a grandiosa revolução humana
de uma única pessoa irá um dia impulsionar a
mudança total do destino de um país e além disso
será capaz de transformar o destino de toda humanidade"
Daisaku Ikeda

"[...] não se meta a exigir do poeta
que determina o conteúdo em sua lata,
pois ao poeta cabe fazer
com que na lata
venha caber o incabível"
Jeanne Guesné, Gilberto Gil

Dica de livro: Os Mutantes - Uma nova humanidade para um novo milênio - Pierre Weil

Ouvindo: Victor Bello - No caminho com pierrot

UM SOL NO ESCURO


Tenho escutado muito o disco do músico paulistano Fábio Góes “Sol no escuro”, lançado em 2007 pelo selo Reco-Head. O disco traz uma sonoridade mesclada, por uma áurea melancólica e intensa, Góes experimenta desde sonoridades mais psicodélicas e indies, a uma MPB ampla. Sol no escuro, foi um trabalho de constante amadurecimento, já que o disco foi feito sem pressa, onde Fábio toca todos os instrumentos, percebendo nele influências de bandas como Radiohead, Clube da Esquina, Jorge Ben e os experimentais do Mogwai. O disco também conta com a participação da cantora Céu, na faixa jazz “Sun of your eyes”.
Góes é cantor, compositor e multiinstrumentista e trabalha também produzindo trilha sonoras para cinema, seu talento pode ser observado na trilha do maravilhoso filme de Walter Salles “Abril Despedaçado” (2001), também em “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund, nas do documentário “Pixote in Memorian” (2006), de Felipe Briso e Gilberto Topczewski, e no curta “Balada das Duas Mocinhas de Botafogo” (2006), de João Caetano Feyer e Fernando Valle. Um disco especial, de talento e dedicação, vale a pena conferir.

Para baixar o álbum: http://lix.in/-2fcf86

Ouvindo: Fábio Góes - Mundo Acumulado

domingo, 28 de setembro de 2008

O grafiteiro dos sonhos


Sou grafiteiro das brumas, trovas, limoeiros. Grafito todo o início do século, grafito devaneios nos muros, ando descalço sobre as paredes desenhando as faces da babilônia acinzentada, percorro obras inacabadas, me atiro no teatro mamulengo e bunraku, escrevo um oásis nas mãos e lanço meu foco na retina de quem passa aqui. Vejo Pasolini na tala, capto Picasso no birro, ouço Asian Dub na tinta. Também sou grafiteiro das palavras, sou cafetão de novas idéias, rasbiscando no alto o vazio à flor da pele. Tatuando o chapisco, eu escrevo em imagens falas, veias, trabalhos, emoções, sou o cio da arte que vem para deixar rastros, sou grafiteiro das utopias rubricadas, sou grafiteiro das minhas telas roubadas, sou o grafiteiro dos sonhos.

Ilustração photoshop: Victor Bello
Texto: Victor Bello

Ouvindo: Nina Simone - Here comes the sun (François K remix)

Mestre Ben



Jorge Ben, floresceu e iluminou com maestria a música brasileira na década de 70. E se você for buscar discos como Tábua de Esmeraldas, Salve Simpatia e África Brasil da mesma década vai confirmar o que aqui está escrito e se for fuçar ainda mais vai dar de cara com um disco chamado "Negro é Lindo" de 1971, nesse disco Jorge nos presenteia com tamanho deleite, faixas lindas, de admirável sensibilidade, talento e indícios de suas experimentações que permeiam vários discos ao longo de sua carreira. Faixas como "Negro é lindo", fazem você suspirar encanto, "Cassius Marcello Clay" uma aula, "Que maravilha" que recebeu várias versões posteriormente aqui tem sua cadência e suavidade original e "Porque é proibido pisar na grama", a faixa do disco que mais gosto, Jorge como um cronista dos tempos, exala um perfume de sutileza apaixonada e com muita inspiração emociona e fascina nossos dias. A música de Jorge tem amor, a música de Jorge é poderosa, Salve Jorge, posto aqui embaixo a letra de "Porque é proibido pisar na grama" e o disco "Negro é Lindo". Bom proveito

Porque é proibido pisar na grama

Acordei com uma vontade de saber como eu ia

E como ia meu mundo

Descobri que além de ser um anjo eu tenho cinco inimigos

Preciso de uma casa para minha velhice

Porém preciso de dinheiro pra fazer investimentos

Preciso às vezes ser durão, pois eu sou muito sentimental meu amor

Preciso falar com alguém que precise de alguém, pra falar também

Preciso mandar um cartão postal para o exterior, pra meu amigo Big Joney

Preciso falar com aquela menina de rosa, pois preciso de inspiração

Preciso ver uma vitória do meu time, se for possível vê-lo campeão

Preciso ter fé em Deus e me cuidar e olhar minha família

Preciso de carinho, pois eu quero ser compreendido

Preciso saber que dia e hora ela passa por aqui e se ela ainda gosta de mim

Preciso saber urgentemente. Porque é proibido pisar na grama


Link do disco "Negro é lindo": http://lix.in/f93f3c29


Ouvindo: Jorge Ben - Porque é proibido pisar na grama

domingo, 21 de setembro de 2008

O quarto 4


O número 4 o persegue, ele tenta inverter isso.

Em um quarto de hotel, espera o telefonema dela, parece cenário de um filme noir, na lembrança “Império do crime”, de Joseph H. Lewis, filme que adora. Deitado na cama com as pernas abertas, a camiseta branca e a bermuda xadrez só levanta para acender as inúmeras pontas de cigarro que ainda consegue fumar. As horas passam turvas, a cabeça cansada, latejando a imagem dela. Pensa o quanto é vulnerável, pensa em demasia sobre ela e isso o atrapalha, pensa sobre os mistérios e sobre os gostos por qualquer algo que a dê prazer, sabe que um dos seus artifícios é ligar para ele, para enaltecer seu ego. Ele, seu termômetro de vaidade.
Levanta da cama, liga a tv, o abajur piscando prestes a esgotar seu sinal de luz, abri a janela, vê cinzas, somente cinzas, cinzas e escuridão, a cidade adormecida, as ruas da Glória são cena de um outro filme, não lembra qual. Ele pensa, começa a pensar em largar tudo, mudar de cidade, estado e país, pensa em começar a se desvencilhar, se envolveu demais agora é difícil escapar, pensa na frase de Pitágoras “O homem é mortal por seus temores e imortal por seus desejos”, é apenas uma frase, quando vai começar adotar frases em sua vida? Ele sabe, que ela se sente atraída por sua sensibilidade, gosta de abraçá-lo, essa doce ao mesmo tempo amarga ilusão que faz o número quatro o perseguir. Ela, porém, possui tatuado o número 8 deitado no pulso, mas o número dele é o 4, o quarto de número 4, de um hotel barato da Glória. A rua deserta, começa a amanhecer, vê senhoras indo pegar a feira de domingo, vê diversas pessoas começando sua caminhada matinal, pensa em ir até a feira comer uma tapioca bem quentinha, comprar umas frutas, há tempos que não se alimenta bem, olha fixamente um vira-lata revirando os sacos de lixo da rua, o telefone toca, ele resisti em atender, não atendi, decidiu trocar de quarto, decidiu trocar de número.

Ouvindo: João Bosco – Feminismo no Estácio

Somos todos pós-modernos?


Excelente artigo de Frei Betto, extraído da revista Caros Amigos, de setembro de 2008.

Somos todos pós-modernos?
A resposta à pergunta acima é sim, se comungamos essa angústia, essa frustração frente aos sonhos idílicos da modernidade. Quem diria que a revolução russa terminaria em gulags, a chinesa em capitalismo de Estado e tantos partidos de esquerda assumiriam o poder como o violinista que pega o instrumento com a esquerda e toca com a direita?

Nenhum sistema filosófico, resiste, hoje à mercantilização da sociedade: a arte virou moda; a moda, improviso; o improviso, esperteza. As transgressões já não são exceções, e sim regras. O avanço da tecnologia, da informatização, da robótica, a gogletização da cultura, a telecelularização das relações humanas, a banalização da violência, são fatores que nos mergulham em atitudes e formas de pensar pessimistas e provocadoras, anárquicas e conservadoras.

Na pós-modernidade, o sistemático cede lugar ao fragmentário, o homogêneo ao plural, a teoria ao experimental. A razão delira, fantasia-se cínica, baila ao ritmo dos jogos de linguagem. Nesse mar revolto, muitos se apegam às "irracionalidades" do passado, à religiosidade sem teologia, à xenofobia, ao consumismo desenfreado, às emoções sem perspectivas.

Para os pós-modernos a história findou, o lazer se reduz ao hedonismo, a filosofia a um conjunto de perguntas sem respostas. O que importa é a novidade. Já não se percebe a distinção entre urgente e importante, acidental e essencial, valores e oportunidades, efêmero e permanente.

A estética se faz esteticismo; importa o adorno, a moldura, e não a profundidade ou o conteúdo. O pós-moderno é refém da exteriorização e dos estereótipos. Para ele, o agora é mais importante que o depois.

Para os pós-modernos, a razão vira racionalização, já não há pensamento crítico; ele prefere, neste mundo conflitivo, ser espectador e não protagonista, observador e não participante, público e não ator.
O pós-moderno duvida de tudo. É cartesianamente ortodoxo. Por isso não crê em algo ou alguém. Distancia-se da razão criticando-a. Como a serpente Uroboros, morde a própria cauda. E se refugia no individualismo narcísico. Basta-se a si mesmo, indiferente à dimensão social da existência.

O pós-moderno tudo desconstrói. Seus postuluados são ambíguos, desprovidos de raízes, invertebrados, sensitivos e apáticos. Ao jornalismo, prefere o shownalismo.
O discurso pós-moderno é labiríntico, descarta paradigmas e grande narrativas, e em sua bagagem cultural coloca no mesmo patamar Portinari e Felipe Massa; Guimarães Rosa e Paulo Coelho; Chico Buarque e Zeca Pagodinho.

O pós-modernismo não tem memória, abomina o ritual, o litúrgico, o mistério. Como considera toda paixão inútil, nem ri nem chora. Não há amor, há empatias. Sua visão de mundo deriva de cada subjetividade.

A Ética da pós-modernidade detesta princípios universais. É a ética de ocasião, oportunidade, conveniência. Camaleônica, adapta-se a cada situação.

A pós-modernidade transforma a realidade em ficção e nos remete à caverna de Platão, onde nossas sombras tem mais importância que o nosso ser; e as nossas imagens, que a existência real.

Frei Betto é escritor, autor de Calendário do Poder (Rocco), entre outros livros.

Ouvindo: O Rappa - Fininho da vida

Som dos irmãozinhos...


Trabalho de grandes amigos, que estão na batalha !!

Popó e o amor moderno
www.myspace.com/oamormoderno

Link para baixar o cd:
www.mediafire.com/download.php?83ww1zpdmhl

Projeto Prestes
www.myspace.com/projetoprestes

Bom proveito !!!

Ouvindo: Popó e o amor moderno - Muralha da China

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Histórias extraordinárias de chuveiro (parte um)


Ela achará conforto debaixo do chuveiro, debaixo da água pensa pouco, quando desliga volta a pensar muito. Ela para, sente a água deslizar sobre seu corpo, fecha os olhos e deixa a água escorrer sobre seu rosto, desliga, agacha e fica de cócoras, fica em uma posição tranquila em que possa urinar perto do ralo, levanta, volta a ligar a água, volta a sentir a água em seu rosto, deixa ela massagear o peso dos ombros, se espreguiça e com movimentos bem uniformes estala os cotovelos, desliga, põe as mãos na parede, parece pensar, sonha: sai molhada do box, se seca e vai direto pra cama, parece esperar alguém, alguém chega, parece estar com sono que nem ela, dessa vez não irá passar o secador no cabelo, irá dormir de cabelos molhados, a pessoa deita ao lado dela, se abraçam e depois dormem. Dormem um sono profundo, os anjos estão ali, os anjos observam.
Ela acorda, começa a se ensaboar e suavemente vai passando o sabonete sobre seu corpo, apalpa os seios, ao chegar nos mamilos faz movimentos circulares com os dedos, se sente aliviada, se sente segura, desliga, terminou o banho, se seca com a toalha, passa o secador nos cabelos úmidos, fixa o olhar no espelho do banheiro um pouco embaçado, se observa, pensa que está ficando velha, acha que está perdendo seu encanto, continua a olhar fixamente no espelho, se vira, abri o blindex do box e entra, liga a água e volta a sentir a água sobre seu rosto, parece pensar, sonha: quer se deitar, sentir os abraços e dormir lentamente em claro, em descanso com quem ela tanto espera.

Ilustração: Gustave Courbet - O sono
Texto: Victor Bello

Escrito corriqueiro após mais um dia pensativo

Chegando para somar. Texto de Tiago Quintes, amigo e colega de trabalho da TV. Valeu Tiago, com a mão estendida para seu talento. Victor

Hoje à tarde um anjo sentou numa mesa de bar.
Estávamos eu, meu amigo, o anjo, e o dono do lugar. Falamos de amores, de projetos, de poesia, de poetas, das dificuldades da vida, do futebol. A poesia prevaleceu. Porque é a mais singela.
E mesmo havendo frustração outra, em momento seguinte, o lamento não tardou em passar.
A poesia tarda, e nunca se vai tarde.
Em qualquer mesa de bar ou banco de praça onde exista o soar ou o ler, haverá um anjo sentado, concentrado.

Tiago Quintes é estudante de cinema da Universidade Estácio de Sá, bom leitor de poemas e observador de anjos sentado em mesa de bar.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Para começar a semana...

"Há um cio vegetal na voz do artista.
Ele vai ter que envesgar seu idioma ao ponto
de alcançar o murmúrio das águas nas folhas
das árvores.
Não terá mais o condão de refletir sobre as coisas.
Mas terá o condão de sê-las.
Não terá mais idéias: terá chuvas, tardes, ventos, passarinhos..."

Manoel de Barros - Retrato do Artista Quando Coisa.

Ouvindo: Victor Bello - Pra vitória.

A mulher difícil da cidade


Ela tinha dois celulares, deu o número só de um para ele, afinal por que daria o número do outro? Encontrou-a após o expediente, pediu para ele se sentar, tomar um chopp bem gelado com ela, aceitou na velha tradição carioca do chopp depois do trampo. Chegou a cogitar a boa da noitada, ela desconversou, já tinha a boa dela, falaram um pouco sobre alguns temas, ela sorriu, sorriu durante aquelas duas horas aguçadas da rua agitada da Voluntários, a luz da lua figurando sua reserva de esperança. Quando chegou um amigo dela, ela se virou, a volúpia assim se transformou, ao ficar nervosa ela apertava suavemente os lábios, o que fazia ser tudo mais excitante. O amigo dela não parou de falar, falou tudo que tinha para falar e continuou. Ele foi ao banheiro, quando voltou ela não estava mais lá, pagou a conta toda e o amigo dela disse:
- Cara, um carro passou aqui e pegou ela.
Em Botafogo é assim, as pessoas somem e outras aparecem. O celular dela desligado, aí veio a desilusão, pronto, as armadilhas da mente que vem lentamente, essa transição que prefere se afogar, fútil em desalinho e se transforma em outro, assim alivia a sua dor, sua válvula de escape se transforma em teias. Ele para, pensa e reflete, se o mundo fosse ao contrário, assim sem os desejos, sem os incômodos, sem esse eterno gozo incompreensível, que nos prende nesse mundo da carne.
E o cerne de que tanto tentou abdicar, os prantos que engarrafou seu coração, quer se fechar do desejo especialista em tecer redes.
É assim seu caminho, escolheu viver de falsas esperanças, mas mesmo em vão, segue acreditando, acreditando nos poetas, que o resgatam, que o salvam. Certa vez, um amigo de longa data, disse que o seu erro foi aquele de sempre se aprofundar nas mesmas dores, dores dos amores perdidos, dos amores proibidos, nas ilusões repetidas, mas mesmo assim acredita, acredita nos poetas, pois se eles estão certos ou não, não saberá o que poderá dizer, mas se para ele, nesse mar de insensibilidade do excesso que nos cerca, ele acredita, é com as unhas e dentes de seu corpo e de seu coração, que fará tudo girar em torno dessa crença, é essa vida que ele faz; e é com essa fé mesmo que cega na poesia, que segue levando na mais profunda sensação, de se admirar, sentir e lutar sempre por um grande amor....Ufa...Chega. Cansou de ser tolo por essa mulher, vai se enganar agora com outra e assim segue vivendo.

Ilustração: Quadro de Regina Lopes
Texto: Victor Bello

Ouvindo: Chico Buarque e Edu Lobo – A mulher de cada porto

Lavando o talo.

Tive o privilégio de curtir o show da banda de reggae das Ilhas Virgens, Midnite. Muitos que viajam em som estavam presentes, um show sensacional, como disse o camarada lavou a alma, mas se lavar alma, é quando temos uma sensação agradável, nesse caso, o show foi um banho, mas fica a pergunta, o que seca nossa alma? Voltando ao show, defini o som dos caras como “Reggae mântrico”, a pressão das linhas de baixo, a cadência dos músicos e a voz do vocalista Vaughn Benjamin, fazem da banda uma das mais singulares e originais dessa nova geração do reggae, o diferencial da banda está justamente nas fusões e possibilidades que a banda usa em torno de sua música, misturando o reggae roots, com o ragga e o powerreggae, entre outras influencias, a banda faz um som totalmente hipnotizante. Com uma carreira composta por uma obra já prolífica, Midnite nos apresentou um show inesquecível. Entre uns amigos meus, que estavam ao meu lado ouve um momento do show em que a discussão era a marcação do compasso da banda que no 4/4, hipnotizavam até o talo todos nós. Coisa de músico mesmo, esse seu ouvido em, Brow.
Vaughn é muito talentoso, tem um vocal poderoso e faz uma linha melódica marcante nas músicas. As letras da banda também são muito fortes, cercadas por mensagens espirituais e de cunho consciente. Salve, Midnite, Salve o show da madrugada de sábado para domingo no centro do Rio de Janeiro.

"- Bom, Midnite é uma união de pessoas que estão atrás da verdade no som e na palavra. Tentando reinstituir os meios originais de se viver e comer. Os modos corretos de se alimentar em nossa cultura, a qual o sistema acorrenta.

- Então, é muito mais que apenas música?

- Não, é um modo completo de se viver. Não é apenas música, é todo um modo de se pensar, falar e comer. Para simplesmente restabelecer, holísticamente, a retidão do pensamento, a limpeza do coração, mãos e espírito."

Vaughn Benjamin - o texto traduzido foi retirado da entrevista concedida a FOX TV (18 de fevereiro de 2002).

Link para baixar o álbum: http://rapidshare.com/files/12289878/4_-_Jubilees_of_Zion.rar

Ouvindo: Midnite – Ras to the bone

sábado, 13 de setembro de 2008

Seu Gonçalo.


Li hoje, o livro de contos, "O Homem ou é tonto ou é mulher", de Gonçalo M. Tavares, escrito para uma peça de teatro, levado ao palco em Portugal como um monólogo. O que me chamou a atenção neste livro foi como Gonçalo, usa de maneira talentosa a forma estilistica que desencadeia o livro, que são uma espécie de microcontos que formam um conto como um todo, o escritor vem sendo elogiado pela critica já há algum tempo, seus livros repletos de novas possibilidades de recursos linguisticos ganharam elogios também do consagrado escritor português José Saramago. Sigo atento aos escritores lusitanos já algum tempo, como Antonio Lobo Antunes, Inês Pedrosa e o romance que gostei banstante "Nenhum Olhar", de José Luís Peixoto; Gonçalo neste livro, ao tratar do homem moderno de maneira até cômica e irônica retrata esse homem repleto de contradições e angústias e cheio de excessos. Esse homem que lida com a correria das grandes cidades, os relacionamentos postos em dúvidas, que ama as mulheres e isso está no seu sangue e que acaba por nos dizer, afinal o que é isto tudo e o que afinal adianta ? Gonçalo acaba usando a língua a seu favor, com a coragem de reinveintar novas possibilidades de se fazer literatura, como o próprio afirma. Esse homem dos microcontos de Gonçalo sente em demasia, mas não expõe facilmente seus sentimentos é cercado por um fluxo de incertezas e pensa muito. Mas Gonçalo, seu livro suscitou em mim uma certa queixa se repleto de contradiçoes é esse homem, e isso não precisa nem ser uma evidência, nem uma obscuridade, que tipo de homem tonto é esse que cercado nesse mar de insesibilidades, nessa voz sem saída, ou seja, na multidão é poeta, vagabundo, errante, fisgador de ilusões, ou sei lá o quê ? Concordo em partes com o titulo, acho até poético, sem evidencias seu texto é interessante, mas agora fica a intenção de ler seus próximos escritos, o romance premiado Jerusalém e a série Bairro, que homenageia alguns escritores da literatura de todos os tempos, postos como personagens em uma obra ficcional. Acho interessante também, quando Gonçalo disse, conforme saiu na estrevista feita pelo caderno literário Prosas & Versos, do dia 6 de setembro, que os prêmio são vitrines para os seus livros, contudo, seu foco são os leitores, são aqueles leitores atentos a seus livros, e se numa rede que aparecem inúmeros peixes, mas com uma única linha ele pode dar atenção a um leitor singular e especial. Bacana, um escritor original no meio dessa multidão.

Ouvindo: Paulinho da Viola - Onde a dor não tem razão

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Por um mundo sem venenos

Vai uma dica de site e de mudança de hábitos também. A rede ecológica é uma iniciativa de pessoas que apoiam a relação direta entre os consumidores urbanos e pequenos produtores agroecológicos, ou seja, cai a prerrogativa de que alimentos orgânicos custam caro, pois na rede, compra-se diretamente de plantadores, produtos sem agrotóxicos e de produtores atuantes na área da economia solidária e sustentabilidade. Segundo a psicóloga e consumidora da rede Carolina Duarte, participante do programa Atitude.com, da terça-feira dia 09/09, com o tema "Consumo consciente", é superfácil se filiar a rede. O site dá todas as dicas de como adiquirir os produtos da rede, a história da rede e até algumas receitas. Fica aqui a célebre e consciente frase "Pensar globalmente, agir localmente", o pouco que movimentamos gera resultados em um âmbito maior, isso é fato, basta começarmos a agir.

http://www.redeecologica.org/

Dica de Livros: Cidadania Planetária - Daisaku Ikeda e Hazel Henderson
A vida dos animais - J. M. Coetzee

Ouvindo: Erykah Badu - In Love with tou

O Poeta Rumi.


Certa vez, Rômulo um amigo meu que não vejo já há algum tempo, me emprestou um livro chamado "Poemas Místicos", da coleção de poemas Divan de Shams de Tabriz escritos no séc. XII pelo poeta persa Jalal ud-Din Rumi, conhecido também no Oriente por Maulana Rumi e no Ocidente apenas de Rumi, como consta a Introdução de Poemas Místicos, segundo o teólogo Leonardo Boff, Rumi era um erudito professor de teologia, zeloso nos exercícios espirituais. Tudo mudou quando se encontrou com a figura misteriosa e fascinante do monge errante Shams de Tabriz. Como se diz na tradição sufi, foi "um encontro entre dois oceanos". Esse mestre misterioso iniciou Rumi na experiência mística do amor. Seu reconhecimento foi tão grande que lhe dedicou todo um livro com 3.230 versos o Divan de Shams de Tabriz. Divan significa coleção de poemas. Lê-se na poesia de Maulana Rumi, uma contemplação a vida ao mesmo tempo, uma árdua jornada em busca de autoconhecimento e trocas existenciais, Jalal deixa no leitor um sentimento de se aprofundar desde já nas coisas mais simples da vida como olhar atentamente o céu, ao amor pela unidade e a existência como um todo. Acabou Romulo, me presenteando com o livro, por quem sou muito grato e se para Jalal a forma em seus minimos detalhes é de uma voluptuosa vontade de viver, que o faz um dos poeta místicos mais importantes da história, Rômulo também sempre me inspirou com sua alegria de viver, desde quando viajamos juntos para a Chapada Diamantina, na Bahia. Lendo esse lindo livro, que veio parar em minhas mãos, sobre o quanto Rumi contempla o que há de mais belo na vida do ser, ao mesmo tempo que nos faz adentrar nas fabulosas histórias persas, tão cercadas de mitos e curiosidades, fica a primeira dica de livro do Blog, para quem gosta de poemas que inspiram as manhãs, tardes e noites de nossa jornada terrestre. Seguindo o pensamento de que os livros não param em nossas mãos por acaso, agradeço Rômulo mais uma vez que por sinal tem traços fortes de um bom rapaz persa. Que em uma bela manhã por sugestão, Rômulo que pela última vez que nos trombamos, estava estudando acupuntura possa me fazer uma sessão e batermos um bom papo sobre Rumi, também conhecido como poeta do amor, que ilustre nossas vidas com um sopro místico conforme sua poesia nos deixou.

A evolução da forma

Toda forma que vês
tem seu arquétipo no mundo sem-lugar.
Se a forma esvanece, não importa,
permancece o original.

As belas figuras que viste,
as sábias palavras que escutaste,
não te entristeças se pereceram.

Enquanto a fonte é abundante
o rio dá água sem cessar.
Por que te lamentas se nenhum dos dois se detém?

A alma é a fonte,
e as coisas criadas, o rios.
Enquanto a fonte jorra, correm os rios.
Tira da cabeça todo o pesar
e sorve aos borbotões a água deste rio.
Que a águanão seca ela não tem fim.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode ser isto segredo para ti?

Finalmente foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo-um punhado de pó -
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regrassar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

Passa de novo pela vida angelical,
entre naquele oceano,
e que tua gota se torne mar,
cem vezes maior que o Mar de Oman.

Abandona este filho que chamas corpo
e diz sempre "Um" com toda a alma.
Se teu corpo envelhece, que importa?
Ainda é fresca tua alma.

Jalal ud-Din Rumi.

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